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Negacionismo, intervenções e a morte dos mensageiros: Uma tragédia anunciada


A expressão “não mate o mensageiro”, proveniente do provérbio latino “Ne nuntium necare”, surgiu, segundo a história, quando Dario III, rei da Pérsia, derrotado na guerra, determinou a morte do mensageiro que o informara que seus guerreiros sucumbiram ao exército de Alexandre, o Grande. Outros tiranos, optavam por preservar a vida, cortando a língua dos portadores de más notícias, acreditando que estavam assim “eliminando o mal pela raiz”.


A motivação desta decisão pode ser analisada, no mínimo, a partir de dois ângulos: um pessoal e outro político. O pessoal provém da irritação de quem se crê “soberano”, e vê a realidade contrariar seus desejos, os quais deveriam estar acima de tudo, por ser a expressão das necessidades divina. Já o componente político passa pela intenção de evitar que outros, além do soberano, tenham acesso à informação, pois ela acaba mostrando que o mandatário não está, em última instância, no exercício do poder.


A gestão do governo brasileiro diante da pandemia da Covid-19 está repleta de atitudes discutíveis, envolvendo sucessivas trocas no Ministério da Saúde, apostas em tratamentos preventivos sem as devidas evidências científicas, uma boa dose de leniência em relação às medidas preventivas, beirando, em alguns momentos, o negacionismo à doença, desencontros políticos e diplomáticos em relação à compra de vacinas e à construção de um plano de vacinação - sem contar as controvérsias geradas na adoção das medidas fiscais e monetárias para tentar minimizar os efeitos econômicos da pandemia, com desgaste na base de sustentação política do governo.


O saldo de um ano de tantos desencontros e controvérsias resulta em 246.560 óbitos pela Covid-19, até o dia 21 de fevereiro, com o sistema de saúde extremamente pressionado e uma segunda onda que avança diante de um lento e tumultuado plano de vacinação.


Do lado econômico, a taxa de juros ficou incompatível com as pressões inflacionárias, com a forte deterioração do quadro fiscal, com o alto desemprego e com o baixo ritmo da atividade econômica, elevando assim a relação dívida/PIB para patamares preocupantes, sem que o governo consiga sinalizar compromissos com o equilíbrio fiscal de longo prazo e com a equipe econômica isolada e em um silêncio ensurdecedor.


Como consequência, o real sofre muito, sendo a moeda que mais se deprecia em relação ao dólar, mesmo diante da enorme liquidez global e com a moeda norte-americana enfraquecida em relação às demais divisas globais, fazendo o Brasil perder competitividade em relação aos demais países emergentes.


A elevada liquidez, o avanço da vacinação e a perspectiva de recuperação da atividade econômica nas principais economias tem elevado os preços das principais commodities, que combinado com a desvalorização do real, estimula exportações e pressiona a inflação brasileira.

A ausência de medidas macroeconômicas consistentes no longo prazo, a antecipação da campanha eleitoral e a pressão dos aliados por medidas populistas de curto prazo leva o governo a recorrer, mais uma vez, à prática de “matar o mensageiro”.

No caso desta semana, o presidente da Petrobras foi o alvo, já que a política de preços da estatal sinaliza a alta do preço do petróleo e a desvalorização do real. O governo parece crer que a estatal brasileira, companhia de capital aberto com ações negociadas no Brasil e no exterior, que tem 43,11% do seu capital nas mãos de investidores estrangeiros, é a única responsável pela alta dos combustíveis e que substituindo o seu presidente estará resolvendo o problema e atendendo parte de seus apoiadores, os caminhoneiros.


No mesmo ritmo, o Palácio do Planalto, avisa “que o próximo alvo será o setor elétrico”, rumando para o pantanoso caminho já trilhado, sem sucesso, pelos governos Dilma, Lula, Itamar, Collor e Sarney, que usavam e abusavam do poder de acionista controlador para transformar as empresas estatais em instrumentos de políticas econômicas de curto prazo.

O mercado financeiro, que valoriza muito as boas práticas de governança corporativa, reagiu negativamente, com as ações da Petrobras experimentando fortes quedas durante a sexta-feira e o real sofrendo mais um pouco, pois historicamente as interferências governamentais nas estatais brasileiras são desastrosas para os acionistas minoritários e para o País.


Assim, o IBOVESPA que vinha operando no ritmo do bom humor internacional, chegando a atingir a máxima do mês, na quarta-feira (17), com 120.355 pontos e alta de 4,60% no mês, perdeu força e encerrou a sexta-feira a 118.430 pontos, reduzindo a valorização do mês para 2,92%, muito influenciado pelas ações da Petrobras, que fechou em R$ 29,59, na quarta-feira(17), com uma valorização de 10,87% no mês e na sexta-feira despencou para R$ 27,33, com uma queda de 6,63% no dia, reduzindo o ganho do mês para 2,40%. Já o dólar Ptax R$ 5,3924, acumulou uma queda de 1,52% no mês.


A próxima semana será muito importante, pois o mercado financeiro deverá precificar com rigor o ímpeto resolutivo do Palácio do Planalto, tentando resolver pontualmente problemas estruturais de longo prazo da economia brasileira, enquanto o Ministério da Economia tenta encontrar uma saída para as proposições de retorno do auxílio emergencial e a desoneração fiscal do óleo diesel, visando recuperar o equilíbrio fiscal.

Os investidores ainda tem na memória os sucessivos desastres intervencionistas dos governos anteriores na Petrobras, no setor elétrico, no Banco Brasil e na Caixa Econômica Federal, que provocaram aceleração inflacionária, desajustes nas contas públicas e deterioração de resultados nas principais estatais brasileiras. Esse cenário foi um dos propulsores para o apoio à agenda liberal do candidato Bolsonaro. Contudo, vale lembrar que quanto maiores as expectativas, maior a decepção.








Marco Antônio dos Santos Martins

Professor do DCCA da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, Doutor em Administração, com ênfase em Finanças e Mestre em Economia pela UFRGS.

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